Hoje é dia 03 de maio, domingo de decisão nos campeonatos estaduais. Tudo é um grande espetáculo. As cores dos times invadem a cidade. Parece que só existem duas camisas no mundo. Os jornais dão todos a mesma notícia. A entrada dos torcedores no campo envolve uma logística que interfere em toda a cidade. O trânsito muda completamente o fluxo horas antes do início da partida. Um clima de festa impera na cidade. Uma festa que envolve incerteza, esperança, dúvida. Jamais certezas. Futebol não é o lugar das certezas. Talvez este seja um dos seus grandes trunfos, essa incerteza. Coisa de quem está vivo e apesar de saber que vai, não sabe quando, nem onde, nem como vai morrer. Assim é o futebol. Não se sabe de quanto será o jogo, quem será o herói ou o carrasco do time. Se haverá briga na torcida ou no campo, um grande lance que entrará para a história, ninguém sabe. Se haverá um gol inesquecível, muito menos. Ouço um torcedor do Bahia dizer impetuosamente: “Ah, se eu tivesse uma bola de cristal pra saber se o Bahia ia ganhar... só assim eu iria para o Barradão hoje.”
A organização de eventos desta natureza divide-se por diferentes instâncias: o poder público que viabiliza os jogos, e responsabiliza-se pela segurança no estádio e fora dele. As confederações organizam tabelas, cronogramas e toda logística necessária que envolve viagens, hospedagem, relação com a imprensa, venda de ingressos. Os clubes organizam a performance de seus elencos. As torcidas organizadas cuidam da decoração do estádio e da beleza do visual que se cria com as camisas do clube, fogos de artifícios, bandeiras, e outros adereços, além dos hinos e gritos de guerra.
Mas o show, ah, este fica por conta dos jogadores, sempre. Ainda que se reconheça a importância dos demais atores desta grande festa, seu dono é mesmo o jogador. Sim, sem treinador, sem juiz, sem muitos outros profissionais, como o massagista, gandula e até mesmo aquele que limpa e corta a grama do estádio, nada acontece. Mas não podemos negar que tudo gira em torno do jogador. E ele? O que ele faz em campo? Ele, ou melhor, eles, correm atrás de uma bela e atrevida bola. Os que não gostam de futebol, sempre lançam mão da piada: “Vinte e dois homens correndo atrás de uma bola. Por que não dá uma bola pra cada?” Por que a questão não está na bola em si, como se qualquer bola servisse ao intento. E bola de um homem só, é apenas uma bola de um homem só. Serve a bola coletiva. Só serve a bola do jogo, a bola simbólica, já que a bola física é constantemente trocada durante o jogo. A bola não é apenas uma bola. Ou é, porque ser uma bola lhe basta.
A bola é o elemento anterior à dramaturgia do jogo. É ela quem descreve as linhas sobre as quais será construída uma história. É como se ela fosse o cérebro do dramaturgo, que se solta, entra na história e em seu vai-e-vem organiza a coreografia daqueles vinte e dois homens que seguem embalados por tantos outros a gritar seus nomes como ídolos, heróis. Ir a um estádio de futebol é assistir a uma multidão de trabalhadores, pais de família, homens de todas as classes sociais, profissões e estilos, vidrados na performance de outros homens. Não são loiras estonteantes que desfilam de roupas mínimas naquele campo. São homens suados, tradicionalmente fora dos padrões de beleza – negros em sua maioria – que se transformam na promessa de felicidade de toda essa torcida majoritariamente masculina. E a eles, homens que torcem, não parece incomodar esse ar de homo-erotismo que claramente faz parte desta relação de admiração e desejo.
Mas, voltemos à bola. Ou melhor, voltemos ao dia 03 de maio. Acabados os jogos, campeões conhecidos, fica o vazio de quem perde e a alegria da vitória. Em nosso caso, do Vitória. Eu, Baêa que sou, sinto a camisa que visto esvaziada por dentro. Um coração pesado de tristeza de quem acreditou, mas não venceu. Isso também tem jeito no futebol. Daqui a pouco começa outro campeonato e de novo meu coração estará cheio de esperança de novo. No futebol, dá pra ter esperança, porque tudo muda muito rápido e o posto está sempre à disposição de quem o merecer, ou tiver melhor sorte. Meus amigos vitória continuarão meus amigos e a vida segue. No próximo tento sentirei os mesmos sentimentos de hoje. Ou não. Quem sabe experimento, desta vez, o doce gosto da vitória. Vitória do meu Baêa.
(Adriana Amorim é atriz, professora da Escola de Teatro da UFBA. Mestranda do Programa de Pós Graduação em Artes Cênicas da mesma Universidade, onde estuda o espetáculo do futebol)